Acabei de ler na coluna da Miriam Leitão que o Armínio Fraga acha que não basta investir dinheiro na educação, e que boa parte da culpa da atual situação brasileira em educação é das famílias. "Um mistério", diz ele, sobre o fato de as famílias brasileiras não se devotarem à educação dos filhos, como por exemplo os chineses fariam.
Não diga????
Vou logo dizendo: sou simpático ao Armínio Fraga, acho ele uma ótima figura e um excelente profissional. Mas, caceta, não tem "mistério" nenhum. Eu sempre achei que esse lance de resumir educação aos milhões de reais que são "investidos" em "educação" (e tome aspas) é uma bobagem. Investe-se uma fortuna para sustentar universidades públicas ridiculamente improdutivas. Nossas universidades estão léguas atrás das principais do mundo, e não por causa de grana.
Há uma cultura de valorização do conhecimento no Brasil? Não, não há. Talvez nunca tenha havido, embora já tenhamos tido grandes nomes (de direita e de esquerda, antes que venha alguém me patrulhar). Os pais colocam seus filhos na escola alemã não para que eles leiam Goethe, mas porque está na moda, e, bem, talvez alemão seja útil na profissão deles. Permita-me a pergunta: quem você admira intelectualmente hoje no Brasil? Não vale responder ator, músico ou artista em geral, estou falando de gente que vive daquilo que pensa.
Na escola dos meus filhos, uma semana dessas, houve um evento literário. Andando no pátio, vi como uma das atrações principais dois índios contando histórias - índio mesmo, de cocar de pena e tudo. Porra. Índio brasileiro não tem nem escrita. Por que não colocaram alguém vestido de Shakespeare? Ou, beleza, para valorizar a cultura nacional, um cidadão fantasiado de José de Alencar?
Não, na educação brasileira não existe alta cultura. Cultura é a cultura das ruas, do povo, musicalidade, espontaneidade, ô beleza, capoeira, carnaval e futebol !! Não que isso também não seja cultura, claro. Mas cadê o resto? Que escola valoriza os grandes nomes? Que escola ensina um adolescente que de fato Flaubert é melhor do que, sei lá, Martha Medeiros? Que pais querem que seus filhos de fato se dediquem a aprender para além daquilo que é simplesmente "útil" na vida?
Ah, é, ia esquecendo. É que tem o lance da inclusão social. Claro. Li outro dia num jornal uma entrevista com o Diretor do departamento de engenharia da UERJ. Perguntado sobre qual o desafio da faculdade de engenharia, o cidadão respondeu: "inserção social". Porra, e eu achando que era formar bons engenheiros. Não, isso é bobagem, educação no Brasil só é educação se o professor, a escola, os pais, o faxineiro e as pobres crianças e jovens aprenderem que a água vai acabar no mundo se não economizar, que tem que reciclar, que índio é o supra-sumo da bondade (quem é que vai lembrar que índios são tradicionais infanticidas?), que tem que incluir socialmente, digitalmente, sexualmente, racialmente, que a mata atlântica vai acabar, que a porra do mico-leão dourado vai ser extinto, tudo muito lindo, e livro que é bom, nada, matemática que é bom, nada.
O Brasil, em qualquer teste internacional dos seus alunos, em qualquer matéria, fica na rabeira, nos últimos lugares. Não é que as escolas sejam culpadas. As escolas oferecem aquilo que os pais demandam em boa parte. Ai de uma escola que não coloque "sustentabilidade" em primeiro plano. Não é à toa que não temos um único prêmio Nobel.
Mas sou otimista. Tudo sempre tem conserto, e a história não tem script. Acho que em sete ou oito gerações, a contar da geração dos meus netos, talvez consigamos deixar o pelotão dos fundos no panorama do ensino mundial.
Japoronguices (1)
58 minutos atrás



