Sedução quando se resume a uma técnica fria de conquista perde muito o sentido da coisa. Dizem alguns que sedução é arte. Eu mesmo não tenho opinião porque sedução nunca foi o meu forte - a timidez num grau razoável sempre me impediu de desenvolver esse lado.
Porém, mera técnica ou grande arte, há algumas dicas que os homens normalmente seguem, e o fazem de forma rigorosamente consciente, mesmo quando vocês, leitoras, não fazem muita idéia do que está acontecendo, e quando dão por si...bem, deixa para lá.
Uma delas é a famosa "manobra Tavares". A origem do nome é desconhecida, porém é antiquíssima, remontando, provavelmente, ao sec. XVII, no Veneto. Ela é muito importante porque, pela sua dinâmica, é capaz de definir de forma segura e elegante uma boa conquista.
A manobra Tavares:
a) só pode ser utilizada uma única vez, num primeiro encontro ou no máximo no segundo, na hipótese exclusiva de conquista inicial, ou seja na hipótese de nada ter antes acontecido entre o casal (será inútil e perigosa a repetição dela, com consequências potencialmente desastrosas), e;
b) deve preferencialmente ocorrer em bares com mesas quadradas pequenas de quatro lugares, e com pelo menos três cadeiras (duas ocupadas pelo casal e uma livre) não sendo muito aconselhável em restaurantes com mesas maiores.
A dinâmica dela é mais ou menos assim:
1) Convida-se a moça para tomar uma caipirinha num bar gostoso, tipo o antigo Mistura Fina, a parte da frente do Esch Cigars, o Londra. É fundamental que a moça goste de beber álcool, porque à base de guaraná nada vai funcionar, salvo se se tratar de uma deusa que, nesse caso específico, pode justificar o esforço. Evita-se bares japas, porque saquê é uma bebida
muito perigosa e além disso, como visto, não funcionaria num sushi-bar. Evita-se também a cerveja, pelo efeito empapuçador dela. A caipirinha pode ser substituída por uísque. (Observo que estamos falando de uma manobra útil para o primeiro encontro, se depois tudo der certo nada impede que o casal, já formado o casal, frequente outros locais, claro.)
2) O homem se senta de frente para a moça, do lado oposto, para respeitar a indecisão dela (ainda que fingida). Comanda-se a primeira rodada de caipirinhas e um aperitivo pouco temperado (castanhas, de preferência). Alguns, mais rigorosos, fazem um lanche em casa para chegar no bar sem muita fome. Ah, importante, a caipirinha do homem só pode ser de lima ou limão, por motivos óbvios.
3) A conversação é livre, porém é aconselhável que contenha, em média, 3 tópicos engraçados para cada 1 sério e 1 de elogios à parceira. Isso muda muito conforme a cultura local. No Paraná, por exemplo, conforme eu soube, é 1 x 2 x 1; em Maceió é 4 x 0 x 2. Mas o importante é que a conversa seja mantida num tom engraçado. Pelo manual, o homem jamais deve contar vantagens, salvo se isso se referir a viagens ao exterior, mas mesmo assim com muita discrição.
4) Comanda-se a segunda rodada de caipirinhas, e mantém-se tudo na mesma. Observa-se a reação dela atentamente, buscando os pontos de interesse na conversa. Tenta-se, muitas vezes, se o cara é hábil, experimentar alguma divergência para ver até onde a moça vai na defesa da posição dela (alguns dizem que isso é fundamental).
5) Agora sim. Comanda-se a terceira rodada de caipirinhas e uma vez que o garçom sai para pegar as caipirinhas, o homem alega que vai ao banheiro - mesmo que não tenha vontade alguma de fazer xixi. No banheiro dá-se uma conferida básica, lava bem as mãos, e volta. No retorno, ao invés de se sentar no local inicial, o homem senta em algum dos dois lugares vagos, na perpendicular da moça, puxando a caipirinha nova (que, se tudo der certo, já estará no lugar antigo) para bem próximo do copo dela. Veja-se: ele não senta ao lado dela, mas naquele outro lugar vago da mesa quadrada. Aconselha-se a não puxar muito essa cadeira para perto da moça, mantendo-se ainda uma distância segura, que pode contudo ser diminuída ao longo do resto da noite.
O homem jamais deve parecer nervoso na hora da troca de lugar - tem que dar um ar de naturalidade e segurança, como se fosse óbvio que àquela altura você só poderia estar sentado ali.
Não se deve iniciar o passo 5 antes das duas caipirinhas: há risco de sobriedade em excesso. E nem depois da terceira, pelo risco inverso.
6) Finalizado o passo 5, analisa-se bem a situação. Continua-se com o papo, porque a noite é longa, e mulheres, mesmo com duas caipirinhas, podem manter um impressionante estado de vigilância e desconfiança.
A manobra tavares, a rigor, termina aí. O que vier depois já é decorrência de outras manobras, porém menos sofisticadas do ponto de vista da técnica. Se a Tavares for bem executada, e o ambiente colaborar, a situação já foi definida.
Mas é claro que tudo pode sempre dar errado. Uma vez, um "conhecido" realizou o passo 5 e, quando a moça se deu conta dos perigos da situação, perguntou:
"- Ué, mas por que você sentou aqui?"
O cara, que contudo era versado na melhor técnica, aplicou imediatamente a manobra tradicionalmente conhecida como "saída Mansur":
"- Nada não, é porque aqui dá para ver melhor o garçom para pedir a conta....ôôô garçom !! pode fechar !!"