13 Julho, 2009

Do que se gosta?

Estou há um tempo tentando reunir minhas idéias sobre um tema mais ou menos sério. Um tema que me intriga, e que pode ser enunciado na seguinte indagação: o que leva alguém a gostar de alguma coisa?

O universo das coisas de que gostamos não é somente uma idiossincrasia. É a própria projeção daquilo que somos no mundo. Escolhemos algumas coisas e simplesmente desprezamos outras.

Muitas vezes escolhemos querer gostar. É o gosto, digamos, "ativo". Ninguém gosta de cerveja a primeira vez que sente aquele gosto amargo. E acho muito difícil que alguém goste de Bartók ou de Thelonious Monk a primeira vez que os ouve. Tudo bem, suponho que se possa sentir uma atração pela estranheza da coisa. Uma curiosidade. Mas gostar-gostar, não acredito. Aprende-se a gostar. Dedicamo-nos a gostar de determinadas coisas - e nisso não há nada de ruim ou de errado. Essas muitas coisas são realmente difíceis e demandam um "esforço" para que o prazer apareça.

Outras vezes, porém, o gostar é algo absurdamente "passivo". Bate-se o olho e simplesmente gosta-se. É o meu caso com Ferraris e Porshes, por exemplo.

Bom, até aqui, nenhuma novidade. Mas como isso funciona? Será possível reduzir esse processo a mera consequência de disposições educacionais, do ambiente doméstico da infância, do conjunto de amizades que a pessoa adotou ao longo da vida? Acho que não.

Obviamente estamos tratando da própria personalidade da pessoa. Tudo bem. Mas a personalidade não se define pelo gosto, e nem vice-versa. Não fosse assim, só os doidos assassinos gostariam de heavy-metal, ou só os angelicais curtiriam Bach. Mas a coisa é mais complexa.

Uma família fanática por Al Jareau (para usar um exemplo tétrico) pode conseguir com que seus filhos acabem gostando de Al Jareau - algo difícil de acreditar mas em tese possível. Mas pode ser que o filho tenha um rasgo de bom senso aos 13 anos, mate a facadas a família toda e decida ouvir só Yngwie Malmsteen o resto da vida.

O que mais me maravilha nisso é justamente a irracionalidade inalcançável da coisa toda. É aquele ponto em que o gostar de alguma coisa não tem nenhum condicionante externo, nenhuma causa visível, nenhuma razão aparente. É quando o neném, pura e simplesmente, escolhe brincar com o brinquedo de palhaço vermelho e despreza o carrinho azul. A mais bem construída teoria psicológica não vai nunca alcançar aquela singela decisão.

25 comentários:

O Pior Homem do Mundo Almost disse...

Olá Nicolau...

Well, eu acho esssa questão fácil de responder: Todos nós gostamos das coisas que nos agradam e não gostamos das que nos desagradam.

E como cada um de nós tem uma identidade diferente, cada um de nós pode, hipoteticamente, gostar de coisas diferentes, dependendo do sentido ou da percepção estética de cada indivíduo. Você pode gostar da "Guernica" de Picasso e achá-la uma obra-prima da pintura e eu posso não gostar, achando-a uma ilustração mal desenhada, irrealista e violenta.

A "Estética" é isso mesmo: Dependendo da sensibilidade de cada um, ela reflecte o agrado ou o desagrado que as coisas trazem aos nossos cinco sentidos.

Claro: Essa sensibilidade estética não é estática: vai-se desenvolvendo, refinando e se aperfeiçoando ao longo da vida - com a educação, com os conhecimentos adquiridos, com as experiências vividas -, o que explica que se "aprenda" a gostar de uma coisa que não se gostava antes ou que se deixe de gostar de algo que antes se gostava.

Bom, é o que eu penso.
Abraços!

Cora disse...

Péra!

Eu gosto do Al Jareau! Hum!

Nicolau disse...

Mas meu caro Pior,


Sim, mas o ponto é por que você gosta de alguma coisa ?? Onde exatamente se localiza esse momento em que algo lhe apetece ??


Abraços

Nicolau disse...

Cora,

jura ????


Mas que coisa.


Beijos

ana k. disse...

nicolau,
lembra, tudo é mesmo uma questão de curto-circuitos, impossível refazer certos trajetos, porque são muitas bifurações. e, existindo alguma explicação, lembre-se que é apenas um ponto de vista.

Nicolau disse...

mas, Ana, não há algo de absolutamente interessante no fato de escolhermos ??

No fundo, o livre-arbítrio é uma coisa impressionante.


Beijos

ana k. disse...

claro que há!
olha, eu por exemplo fico muito intrigada com a mudança no gosto.
na comida por exemplo, mais do que entender porque gostava de bala boneco (lebra, lembra??) fico pensando em porque deixei de gostar delas 9ainda bem, na verdade). Será que o gosto mudou? Será que o gosto que eu gostava só existe na memória ou será que eu desgostei do gosto dela?
depois eu faço um posto sobre isso...
beijos,

Chorik disse...

Querem parar todos vocês de confundirem minha cabeça?

Bel Butcher disse...

Gente, por favor, eu tô fazendo mestrado! Assim, vou entrar em crise profunda.

Nicolau disse...

Ana, as mudanças de paladar são realmente impressionantes. E eu que não gostava de uva-passas ?? Sua viagem bergsoniana na bala-boneco é fantástica. Estou aguardando o post !!

Beijos

Nicolau disse...

Chorik, você que começou com esse lance de confundir cabeças, com aquele post da mulher giratória. Agora não reclama !

Abraços

Nicolau disse...

Bel,

Bala-garoto e mestrado, tudo a ver.

Beijos

Patty Diphusa disse...

Difícil, não? Acho que todas as alternativas anteriores estão corretas. E as próximas também. Não há nada mais pessoal do que gostar de algo.


Bjs

Nicolau disse...

Nada mais pessoal e nada mais misterioso. O ponto é esse: eu não sei exatamente por que eu gosto de determinadas coisas e não gosto de outras. Tenho uma vaga idéia, mas certeza não tenho.

Por exemplo, chocolate. Acredite se quiser, mas eu não sou fã de chocolate. Incrível, não ??


Beijos, Patty, estava com saudades.

Amèlie disse...

Nicolás,

mistery!!!!

Eu por exemplo sempre adorei a palavra " moleskine" muito antes de saber o que significava e continuo adorando. Agora, não parei para pensar nas associações, analogias que meu célllllebro processou.


Beijinhos

Nicolau disse...

É isso Amèlie, essa é a idéia. As coisas que simplesmente "gostamos" sem qualificações !!! Sem qualquer outra explicação. Pura afeição. De onde vem isso ????


O que é Moleskine ?


Beijos

Ana disse...

Quando vocês terminarem esse debate - que eu não entro nem a pau! - po favo, analisem:
- por que diabos eu, que não gosto de chocolate, tenho sentido uma ânsia quase diária de comer o outrora detestável BATOM BRANCO?? Ninguém gosta disso (muito menos eu gostava). Nem chocólatra gosta de batom branco. O que aconteceu comigo para eu de repente necessitar desse açúcar horroroso?
Nicolau, conto com a sua perspicácia e sua tremenda capacidade criativa para resolver esse problema.
Gostar de chocolate branco: isso sim é que é enigma.

Bel Boucher disse...

NIcolau, você é um abençoado!

Bel Boucher disse...

(por não gostar de chocolate)

ana k. disse...

ah, pensei que fosse por não saber o que é moleskine...

Thiago disse...

Amèlie é uma sábia... mistery! Afinal, quando explicamos demais o Amor, por exemplo..., é sinal que este está longe da gente e por isso podemos ter uma visão fria e racional sobre o tema.

Não que este assunto, deva ter sua porção dura, fria e contundente, ... mas sem o morno, malemolente e quente...impossível assimilar QUANDO gostamos... seja batom branco, chocolate diversos ou pessoas outrem...

E Hemingway, talvez nem sequer teria idéia que estaria assinalando the legendary notebooks!!!

( já tive alguns, são confortadamentes (neologismo?) deliciosos de se escrever ... )

Grande Abraço meu caro!

Bel Boucher disse...

Ana K, Eu não tenho nada contra moleskines. São coooool demais, é bem verdade, mas são bem práticos também,.
:-)

Agora, que eu acho que essas pessoas que não gostam de chocolate abençoadas, ah, eu acho. E acho também que a ciência deveria estudá-los. Eu daria um noir para não ser apaixonada por chocolate!

ana k. disse...

bel,
o problema de saber o que são moleskines tentar resisitir e não se apaixonar e gastar os tubos com tais bloquinhos maravilhosos. quanto ao chocolate, bel, também adoraria ser coool o suficiente para não gostar. eu chego no nível da dependência química. invejo os seres superiores que não ligam.

Nicolau disse...

Ana, Bel, essa questão mereceu um post específico. Chocolate e chocolate branco são desejos absolutamente misteriores.

E Bel, Ana K., como eu disse no post novo: esse lance de não gostar de chocolate (apesar de ser algo caloricamente positivo) sempre me deixou meio deslocado.


Agora eu entendi o que são Moleskines !!!

Beijos

Nicolau disse...

Thiago, é verdade, ótimo comentário.

Amèlie sempre acerta, não é?

Mas o fato é "de onde" surge o gosto por alguma coisa. Eu ainda não sei.

Grande abraço !!